Noite Qualquer

Dormir sozinho
Alvorecer acompanhado
Dormir carente
Alvorecer cheio

Anoitecer pensativo
Acordar solícito
Anoitecer buscando
Acordar em lembranças

Durmo, mas não quero
Amanheço mármore
Durmo carente
Amanheço cheio

Anoitece quente
Acordo frio
Anoitece em Vênus
Mas… acordo em Marte

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Louco, eu?!

Estou louco há anos, mas são anos relativos. São longos relativamente à loucura absoluta que me foi dada. Dada por aqueles do outro lado. Tentei dizer que não era louco dizendo que era, e mais louco eu era em tentar convencer que estava louco quando eram eles que queriam fazer de mim um louco. Loucura programada, loucura coletiva, que na coletividade do lado de cá do muro, muro alto, se faz acordar, e o pensar intransponível nos faz prisioneiro da minha loucura auto imposta. Como é belo aqui! Que culpa eu tenho se não posso privar-me de tão belas paisagens que eles afugentam. Eles não sabem. Mas os vermes saberão…

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Filhos das firmas

João. Acho que esse era o nome dele, se não for deveria ser. A rosto pelo menos é de João. João-ninguém, um ninguém. Não era e não é ninguém para mim, nem para você. Lembro-me bem de ninguém carregando pastas e papeis. Sempre as pressas. Subindo e descendo as escadas aos respiros e pingos. Pensativo, calado e mudo. Afinal quem daria crédito a ele. Você daria? Pois é, isso o faz ninguém, nem mesmo para o dono da pequena “grande” firma de sei lá o quê. Mas ele era e é alguém para alguém. Consegue ver alguma diferença entre ele e você? Sim! Como você acha que o cara da sala ao lado vê você? … João, deve ser esse o nome dele.

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Sexo

- Ahhh! nada é melhor que fazer sexo! Relaxa, acalma. A vida fica bela e o mundo maravilhoso, né?.
- Nem? Nem?!

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Serviços gerais

- Menina! Você viu o colar novo da Cláudinha!?
- Viii! Deve ter sido caríssimo…
- Pera aê!
- Alô! Sim! É ela mesma. Tô indo para casa. Não!! Eu tô no metrô, minha filha! Cheião!! Vai adiantando ae que a viagem é longa! Beijo!
- Fala minha amiga.
- Menina, foi o amante!
- Sério!
- O marido dela é um mão de vaca!
- E como ele não percebeu?
- hii ! aquilo é corno-maaanso!
(risos)
- Cláudinha já deu até para o menino da Xerox!
(mais risos)
- Não conta para ninguém, mas eu também!!!
(Ataque de risos)

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O mal-educado

Central do Brasil. Volta para casa. Quem já passou pela experiência, sabe. Sim, eu defino para você. Pandemónio. Os painéis só confirmam a plataforma em cima da hora. As vozes só se manifestam para anunciar outros trens. Pessoas brotam do chão. É incrível como se vê pessoas de todos os tipos, raças, cores e tribos. Tribos? sim, tribos. Passava das 20:08. Horário do penúltimo trem direto para Santa Cruz. O trem já na plataforma. Incrível! Já haviam confirmado o trem. O povo não parava de chegar, alguns entravam correndo, tamanho o medo de esperar vinte minutos, quando parte o próximo trem.

Peleja, peleja. É assim que se define o empurra, empurra dentro do trem. Lotado. Bolsas, cotovelos, mochilas, desculpas e suor, muito suor e cerveja. Tamanho é o calor lá dentro que sobra ambulantes vendendo bebidas geladas.

Piuííí! parte a moderna sucata elétrica, que aos batuques, berros, gritos e gemidos avança com tristeza sob o chicote preguiçoso do maquinista. A cada estação entrava mais e mais gente, meu deus! onde vão ficar? mal tem lugar para mim entre os braços e braços da mão-de-obra “escrava” carioca.

Na confusão indomada dentro do trem, achei um lugar para mim. Fiquei na porta, ao canto, pois não me atreveria a enfrentar o guerra de pernas e cotovelos. As pessoas que entravam pela aquela porta, insistiam em me empurrar para o caos. Mas lá permaneci insistente porém não firme. Na altura de, já não me lembro onde, entrou um homem.

A barriga avantajada, do mulato de mãos grandes, me empurrou sem nenhuma cerimonia. Respondi a atitude com o olhar de quem não havia gostado da indelicadeza. Tentei em vão. Acostumado provavelmente a rudez de uma vida penosa, me ignorou e continuou a me empurrar mais e mais para o interior do trem. Por fim tomou meu lugar, e não satisfeito em toma-lo, queria tomar o meu apoio. Acotovelou meu braço até me machucar, por não ter outro lugar ali dentro para ir, suportei. Por fim com o andar do trem e o feliz fato de que tudo que entra, sai, o trem começou a esvaziar e pude sair dali e dar fim a infantil disputa.

Quando o trem parou na minha estação, queria lhe dizer que eu estava triste em saber que ele fazia parte de um povo que defendo e admiro. Não tive tempo, pois a máquina louca não espera ninguém. Saltei junto aos camelôs para plataforma de minha estação dando fim a mais um dia comum da triste rotina de milhões de suburbanos.

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Entrevista

- Onde você vai?
- Para uma entrevista.
- Vestido assim?!
- Claro que não, vou colocar uma camisa mais “soci”. E aí como ficou?
- Eles não analisam o quesito moda não, né?
- Acho que não.
- Então você vai arrasar…

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O doce

O percebi assim que cheguei. Vi por entre os cantos dos olhos um escudo que insistia em entregar-lhe a quem quisesse provar. Mas pisem em suas intenções, pois, ao que lhe cabia, era calmo e leve, sem intenção de se mostrar.

Era perceptível as ousadas marcas das sombras tímidas. Desci esquiando cada traço da topografia umidamente adocicada, de escorrer salivas, de forma lenta e turbulenta. De curvas visivelmente perfeitas à dimensões apropriadas ao consumo. Queria provar aquela calda que já me era palpável. Meus olhos me traíram, saltaram do meu corpo e levianamente caíram naquele abismo de prazer implacável.

A tortura era inegável, a postura eu tenho medo até de pensar, mas era certa a aprovação de todos os presentes, embora fosse desapercebido aos olhos viajantes.

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Cigarro

- Ei! que horas são, por favor?
- Dez e meia.
- Quer um cigarro?
- Não, obrigado. Não fumo.
- Esse é do bom!
- Ah tá! se é do bom eu aceito!
- Você acabou de dizer que não fuma!
- Você me convenceu!
- Dizendo que é do bom?
- E isso já não é o suficiente?!

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Delicados

- Amorzinho?
- Oii!
- Te amo tanto!
- Você também é tudo para mim…
- Amorzinho?
- Oi, meu favo de mel…
- Você gosta de mim??
- Amo…
- Aiii, você é mes…
- Agora cala a boca!! que começou meu futebol.

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