É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso”. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

[BAUDELAIRE, Charles]

Se parássemos para observar o comportamento humano dentro de uma sociedade, poderíamos ver, claramente, que dentro de cada indivíduo ocorre, às vezes, um choque tão esmagador, quanto o de dois trens: a ética e a moral.

A ética é, segundo o léxico no que tange a filosofia, um conjunto de princípios que motivam e orientam o comportamento humando. Como personas, nosso conjunto de princípios que são, em parte, constituídos de uma compartilha com outros seres do meio, possui, também, valores totalmente individuais.

Se rebaixássemos a moral, sob uma lente ideológica, a uma unidade de medida, ao qual mede o quão um indivíduo segue a ética social do seu meio, poderíamos dizer que todo indivíduo reprime sua parte individual da ética, por uma questão moral.

Portanto, podemos dizer, também, que as pessoas são, em sua quase totalidade, moralistas e não éticas. Sendo éticas, somente, quando ocorre tal conflito e se veem impassíveis de sofrer, por sua imoralidade decorrente de seus princípios motivadores, sanções políticas e sociais, à vista da impertinente necessidade que se têm de serem aceitas em seu meio social; necessidade essa que é o maior, se não o único, pilar que sustenta a prostituição da sua própria ética.