Archive for janeiro 2010

- Menina! Você viu o colar novo da Cláudinha!?
- Viii! Deve ter sido caríssimo…
- Pera aê!
- Alô! Sim! É ela mesma. Tô indo para casa. Não!! Eu tô no metrô, minha filha! Cheião!! Vai adiantando ae que a viagem é longa! Beijo! 
- Fala minha amiga.
- Menina, foi o amante!
- Sério!
- O marido dela é um mão de vaca! 
- E como ele não percebeu?
- hii ! aquilo é corno-maaanso!
(risos)
- Cláudinha já deu até para o menino da Xerox!
(mais risos)
- Não conta para ninguém, mas eu também!!!
(Ataque de risos)

Central do Brasil. Volta para casa. Quem já passou pela experiência, sabe.Sim, eu defino para você. Pandemónio. Os painéis só confirmam a plataforma em cima da hora. As vozes só se manifestam para anunciar outros trens. Pessoas brotam do chão. É incrível como se vê pessoas de todos os tipos, raças, cores e tribos. Tribos? sim, tribos. Passava das 20:08. Horário do penúltimo trem direto para Santa Cruz. O trem já na plataforma. Incrível! Já haviam confirmado o trem. O povo não parava de chegar, alguns entravam correndo,
tamanho o medo de esperar vinte minutos, quando parte o próximo trem.

Peleja, peleja. É assim que se define o empurra, empurra dentro do trem. Lotado. Bolsas, cotovelos, mochilas, desculpas e suor, muito suor e cerveja. Tamanho é o calor lá dentro que sobra ambulantes vendendo bebidas geladas.

Piuííí! parte a moderna sucata elétrica, que aos batuques, berros, gritos e gemidos avança com tristeza sob o chicote preguiçoso do maquinista. A cada estação entrava mais e mais gente, meu deus ! onde vão ficar ? mal tem lugar para mim entre os braços e braços da mão-de-obra “escrava” carioca.

Na confusão indomada dentro do trem, achei um lugar para mim. Fiquei na porta, ao canto, pois não me atreveria a enfrentar o guerra de pernas e cotovelos. As pessoas que entravam pela aquela porta, insistiam em me empurrar para o caos. Mas lá permaneci insistente porém não firme. Na altura de, já não me lembro onde, entrou um homem.

A barriga avantajada, do mulato de mãos grandes, me empurrou sem nenhuma cerimonia. Respondi a atitude com o olhar de quem não havia gostado da indelicadeza. Tentei em vão. Acostumado provavelmente a rudez de uma vida penosa, me ignorou e continuou a me empurrar mais e mais para o interior do trem. Por fim tomou meu lugar, e não satisfeito em toma-lo, queria tomar o meu apoio. Acotovelou meu braço até me machucar, por não ter outro lugar ali dentro para ir, suportei. Por fim com o andar do trem e o feliz fato de que tudo que entra, sai, o trem começou a esvaziar e pude sair dali e dar fim a infantil disputa.

Quando o trem parou na minha estação, queria lhe dizer que eu estava triste em saber que ele fazia parte de um povo que defendo e admiro. Não tive tempo, pois a máquina louca não espera ninguém. Saltei junto aos camelôs para plataforma de minha estação dando fim a mais um dia comum da triste rotina de milhões de suburbanos.