Archive for março 2010

Estou louco há anos, mas são anos relativos. São longos relativamente à loucura absoluta que me foi dada. Dada por aqueles do outro lado. Tentei dizer que não era louco dizendo que era, e mais louco eu era em tentar convencer que estava louco quando eram eles que queriam fazer de mim um louco. Loucura programada, loucura coletiva, que na coletividade do lado de cá do muro, muro alto, se faz acordar, e o pensar intransponível nos faz prisioneiro da minha loucura auto imposta. Como é belo aqui! Que culpa eu tenho se não posso privar-me de tão belas paisagens que eles afugentam. Eles não sabem. Mas os vermes saberão…

João. Acho que esse era o nome dele. Se não for, deveria ser. O rosto, pelo menos, é de João. João-ninguém. Um ninguém. Não era e não é ninguém, nem para mim, nem para você, nem para ninguém. Lembro-me bem de ninguém carregando pastas e papéis, folhas e pincéis, celas e tropéis. Sempre às pressas. Nos sobes e desces das escadas sob os sons dos próprios respiros, pingos e azurros. Surdo e mudo, pensativo e ativo, fútil e inútil. Afinal, ninguém daria crédito a ninguém. E isso faz, talvez, ninguém um ninguém, nem mesmo para ninguém que é dono da pequena “grande” firma de sei lá o quê. Ninguém tem perspectiva, ninguém tem saudades, ninguém tem salário, ninguém estertora, ninguém chora, ninguém cora, ninguém ignora… Carlos? Maria? Fábio? Ana? Francisco, talvez. Como que a sala logo ao lado vê você? João. Acho que esse era o nome dele. Se não for, deveria ser…