Archive for the ‘Crônicas’ Category

São vinte e duas horas e sete minutos de um sábado de Dezembro, dia onze, em dois mil e dez, sendo mais exato. Nunca imaginei que um telefonema pudesse causar tanta dor. Uma dor que me cega. Já não vejo mais a luz que chega até mim, é uma dor que rasga, dilacera, mutila, retalha sentimentos tão confusos que ainda não aprendi a dizer, nem com gestos, rostos, palavras ou lágrimas. Tenho vontade de chorar a cada letra que estou a escrever. São lágrimas que quase vomito ao lembrar o pensamento quase imaginativo de uma coisa que tenho medo de expor.

Choraria horas a fio se eu tivesse coragem. Choro por dentro. Choro um choro que como uma chuva de Dezembro não tem previsão de cessar. Mais um cigarro terminou. Olho a brasa quando ainda acesa, a comparação se torna inevitável: nem se todos os cigarros que sem pena consumi ao longo de anos voltassem em fogo dentro de mim, ousariam provocar tanta dor. Penso que logo o texto acabará como a vida que deixei para trás. E minhas palavras ainda que pobres e sem muitos sentimentos é o que me resta, por isso, tenho medo de que até elas me deixem. Não sei se suportaria a bruxa que bate na minha porta.

Não sei se vale o arrependimento. Eu procurei esse destino que errei quando não imaginei ao dizer tantas verdades, tantas mentiras, tantas palavras cruéis àquela, agora, estranha. Uma dor de orgulho ferido, aliada aos fantasmas das minhas faltas com aquela outra, ainda criança, que eu amo sem limites. Queria sentir dor para poder me sentir vivo, mas se essa é a dor, prefiro estar morto. Alguém faça-me esse favor, pois, a minha coragem também já se foi ou ficou para trás.

Agora, penso que não gostaria que soubessem da minha dor, o mundo sentiria tanto pela tragédia do meu ser que chorariam num som fúnebre como um coro trágico, e, de pingo em pingo, afogariam-se só para trazer-me um pouco de alívio imediato. Meu relógio se mostra em algo perto de onze, parece que a dor mais uma vez adormeceu, e tenho medo do momento em que ela vai acordar. Ela vai acordar. E sei que essa ferida, um dia, vai secar, mas quando será, não sei.

João. Acho que esse era o nome dele. Se não for, deveria ser. O rosto, pelo menos, é de João. João-ninguém. Um ninguém. Não era e não é ninguém, nem para mim, nem para você, nem para ninguém. Lembro-me bem de ninguém carregando pastas e papéis, folhas e pincéis, celas e tropéis. Sempre às pressas. Nos sobes e desces das escadas sob os sons dos próprios respiros, pingos e azurros. Surdo e mudo, pensativo e ativo, fútil e inútil. Afinal, ninguém daria crédito a ninguém. E isso faz, talvez, ninguém um ninguém, nem mesmo para ninguém que é dono da pequena “grande” firma de sei lá o quê. Ninguém tem perspectiva, ninguém tem saudades, ninguém tem salário, ninguém estertora, ninguém chora, ninguém cora, ninguém ignora… Carlos? Maria? Fábio? Ana? Francisco, talvez. Como que a sala logo ao lado vê você? João. Acho que esse era o nome dele. Se não for, deveria ser…